Eco Colunas

O principal objectivo da ECOColuna passa por abordar os principais desafios e inovações relacionados com o tema e posteriormente, publicar a mesma no nosso site e redes sociais, para que os leitores possam acede-la.

Engenheiro Tiago Rogado

Quantificar a pegada ambiental de produtos alimentares no espaço europeu – Utopia ou realidade?

Como determinar a Pegada Ambiental de um Produto tem sido uma questão progressivamente discutida no seio da União Europeia (UE) por clientes, consumidores e outras partes interessadas. Neste artigo abordo a dimensão e o impacte que a alimentação animal gera ao longo de todo o ciclo de vida sobre o ambiente. Actualmente já é possível determinar a Pegada Ambiental de um Produto, sendo possível projectar medidas visando a minimização dos seus impactes ambientais e socio-económicos.

Em novembro de 2016, foi lançado o projeto piloto PEFMED, cofinanciado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional, através do Programa Interreg MED de Cooperação Transnacional. Foi traçado um desafio extremamente ambicioso pela UE junto dos parceiros do sul da Europa (Portugal, Espanha, Itália, Eslovénia, Grécia e França) e que envolveu as respectivas federações alimentares enquanto parceiros de projecto: determinar a pegada ambiental de produtos alimentares. Propunha-se aplicar uma metodologia que define critérios padronizados definidos pela União Europeia para diversos sectores alimentares: vinho, azeite, produtos lácteos, carne curada, água embalada e rações animais.  Verifica-se ainda que este projecto é enquadrado em função da Recomendação da Comissão 2013/179/EU de 09 de Abril de 201, sendo que a análise de ciclo de vida é actualmente um requisito normativo da nova versão da ISO 14001:2015.

A parceria com a FIPA e a Herdade do Carvalhoso no projecto PEFMED

Em Portugal, este estudo foi desenvolvido com a colaboração dos parceiros institucionais FIPA – Federação das Indústrias Portuguesas Agroalimentares e a Herdade do Carvalhoso (HdC), sediada no Ciborro, Montemor-o-Novo, no Alentejo. Foram desenvolvidas pela empresa consultora Caravela Sustentável (Eng.º Samuel Niza e Eng.º Tiago Rogado) diversas actividades de consultoria definidas no âmbito do projecto aplicáveis para determinar a pegada ambiental do produto final comercializado pela HdC, em particular, no que se refere à ração biológica animal comercializada para fase final de engorda para bovinos (N330).

Uma vez que a metodologia da “Pegada Ambiental do Produto” considera os impactes de um produto ao longo do seu ciclo de vida, desde o cultivo de matérias-primas, passando pela transformação, transporte e utilização até à eliminação e reciclagem, foram identificados onde se verificam os maiores impactes inerentes ao processo.

Foi assim possível proceder à recolha de informação detalhada de modo a apresentar os cálculos preliminares da pegada ecológica da ração alimentar em estudo recorrendo a um software especializado para o efeito para determinar os respectivos indicadores ambientais aplicáveis.

Esta metodologia permitiu obter informações para classificar cada produto alimentar de acordo com o seu desempenho ambiental, incentivando as empresas a inovar em processos de produção sustentáveis.

Para garantir que a metodologia definida para a determinação da Pegada Ecológica do Produto fosse implementada de modo uniformizado para todos os produtos agroalimentares em cada estado membro, em 2017 e em 2018 foram realizadas diversas reuniões técnicas com os diversos especialistas em análise de ciclo de vida representantes de cada estado membro (em Madrid, Bolonha, Atenas, Paris e Lisboa).

A integração no projeto PEFMED de indicadores sócio-económicos

 
Para além da análise à pegada ambiental, o projecto PEFMED também testou a implementação de 14 indicadores sócio-económicos nas diferentes cadeias de produto e clusters. Foram analisadas temáticas relacionadas com a Saúde e Segurança, Formação, Emprego local, Bem-estar, Investigação e Desenvolvimento (I&D), Condições de Trabalho, Património, etc, que permitiram que as empresas parceiras envolvidas no projecto europeu, conhecessem melhor toda a sua cadeia de abastecimento, melhorar as relações com fornecedores e parceiros, definindo assim estratégias, planos de acção e metas inerentes à sua actividade considerando também as questões sócio-económicas. Ou seja, foi e é possível também determinar qual a pegada sócio-económica gerada pelas actividades económicas por si desenvolvidas.
De Abril a Novembro de 2018, foram analisadas e selecionadas as melhores técnicas disponíveis e medidas de eco inovação passíveis de serem implementadas a curto e médio prazo na HdC, com vista a obter melhores desempenhos e proveitos ambientais e sócio económicos, capazes de reduzir o seu impacte nestas vertentes e por conseguinte minimizar a pegada ecológica do produto.
Durante este período foram elaborados documentos técnicos que fundamentam a análise efectuada, nomeadamente a realização de relatórios sobre cenários económicos a adoptar para implementação de medidas ecoinovadoras, definir uma análise SWOT sobre a implementação das medidas de sustentabilidade considerando as melhores técnicas disponíveis e planos de acção para implementação de medidas de redução da pegada ambiental do produto.

Perpetivas Futuras

Todos os passos desenvolvidos ao longo dos dois anos e meio de implementação do projecto PEFMED, permitem-nos concluir com alto grau de optimismo que actualmente é possível determinar o cálculo de pegada ambiental em rações alimentares, determinar os respectivos indicadores sócio-económicos da empresa comercializadora do produto e implementar de modo estruturado planos de acção em matéria de sustentabilidade devidamente suportados por uma metodologia de trabalho devidamente validada pela União Europeia.
Implementando esta ferramenta, as empresas reforçarão decididamente a confiança que os clientes finais terão nos seus produtos comercializados, podendo ser um elemento claramente diferenciador pela positiva num mercado cada vez mais competitivo e globalizado, marcando assim uma posição decisiva na agenda ao combate às alterações climáticas, na potenciação da análise do ciclo do seu produto e previsivelmente na economia circular.
W. Edwars Deming disse: “sem dados, somos apenas alguém com uma opinião”. Ora implementando a metodologia europeia para determinar a pegada ecológica do produto, preferimos citar a frase proferida pelo Sr. Eng.º Joaquim Grilo (Herdade do Carvalhoso) no decorrer das reuniões deste projecto, “(…) deixemos a natureza cuidar da humanidade, já que a humanidade desistiu de cuidar da natureza (…)”

 

Tiago Rogado
Eng.º do Ambiente
Caravela Sustentável www.caravelasustentavel.com